quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Contos Natalinos

A árvore de Natal na casa de Cristo
DOSTOIÉVSKI
Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.
Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"
- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...
E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Contos Natalinos



O pai, o filho, o outro
Marçal Aquino
Ele não gostou da casa. (Você também não gostaria, acredite.)
Era úmida, escura, inóspita. Não existia forro. As paredes exalavam um hálito defumado, as cortinas estavam encardidas, os móveis caíam aos pedaços. Não havia nada enfeitando as paredes, nem mesmo um calendário. (Você já esteve numa casa doente? Aquela era uma.)
O rapaz sentou-se num sofá desbotado, que cedeu de modo preocupante sob seu peso, e olhou para a velha empregada. Ela disse:
Seu Valdemar já vem.
E afastou a cortina de tirinhas para voltar à cozinha. Sem nada para distrair os olhos nas paredes, ele fixou a atenção no pedaço de bombril preso à antena da televisão portátil. No canto oposto, um minipinheiro de folhas amareladas, enfeitado por meia dúzia de bolas coloridas, fazia as vezes de árvore de Natal. Ele esperou, represando a vontade de sair dali. (Você nunca se arrependeu de algo que ainda está por acontecer?)
Por uma fresta das cortinas, ele pôde ver um pedaço ainda azulado do céu. Escurecia devagar naquela época do ano. Chegaram da cozinha o ruído de panelas e o cheiro de alho fritando. Ele ouviu a voz da empregada, mas não entendeu o que ela dizia. Então se levantou e colocou o rosto entre as tirinhas de plástico.
Falei que você pode ligar a televisão, se quiser, a mulher disse. Só que a imagem não é grande coisa.
A cozinha era maior do que ele imaginava. Abrigava um fogão, armários, uma enorme pia de mármore e uma mesa de fórmica, coberta por uma toalha vermelha. Pratos e talheres para três pessoas. De um dos cantos do teto, afluentes de uma mancha de infiltração avançavam em direção à lâmpada. A empregada se movia de um jeito nervoso entre o fogão e a mesa. Coxeava de uma perna, ele reparou.
Quando se voltou, deu de cara com o homem parado às suas costas.
Tinha se barbeado e penteado os cabelos com capricho, usava uma camisa nova de mangas compridas, calça vincada e sapatos. Recendia a sabonete de pinho.
Ele notou que, vestido daquele maneira, o homem assumia um ar solene - estava habituado a vê-lo de macacão e botinas. Parecia até mais magro vestido com aquelas roupas. E pouco à vontade.
Você quer um aperitivo, Cléber?, o homem perguntou.
E, sem esperar pela resposta, pegou uma garrafa de cachaça e dois copos no armário da cozinha.
Beberam sem brindar. O homem estalou a língua, satisfeito. Ele sentiu o ardor da bebida na garganta. Lacrimejou, tossiu. E percebeu que a empregada olhava com curiosidade para seu rosto.
Essa é da boa, o homem disse.
E serviu-se outra vez. A empregada abriu o forno e espiou o assado. O cheiro espalhou-se pela cozinha, foi capturado pelas narinas do rapaz e classificado como bom.
Podem ir sentando, a mulher disse. Tá tudo pronto.
O homem puxou a cadeira para o rapaz e, depois, sentou-se de frente para ele. Entre os dois, a empregada colocou as travessas com a comida. Por último, protegendo as mãos com um guardanapo, retirou o assado do forno. Lombo com batatas.
O homem esperou que a mulher ocupasse seu lugar à mesa e então olhou para o rosto do rapaz.
Não faça luxo. A comida é simples, mas você vai ver como a Conceição cozinha bem.
O rapaz serviu-se e derrubou arroz na toalha. Manteve a cabeça baixa, evitou olhar para o homem ou para a mulher. Sabia que ambos o observavam. Estava enganado, porém: enquanto o homem abria uma garrafa de vinho, prendendo-a entre as coxas para retirar a rolha, a empregada fatiava o lombo.
Quando terminaram de comer, a empregada levantou-se para passar um café e o homem e o rapaz foram para a sala.
Gostou da comida?
Gostei, o rapaz respondeu.
O homem sorriu, satisfeito. Então entrou no quarto e reapareceu com uma caixa embrulhada em papel de presente.
Comprei pra você, disse. Feliz Natal.
O rapaz segurou a caixa e a vontade de sair correndo dali. Estava pensando que nunca deveria ter aceitado aquele convite.
Eu não trouxe nada.
Não tem problema, o importante é que você está aqui, o homem disse. Abra o seu presente.
O rapaz abriu o pacote. Uma camisa. A empregada entrou na sala com o café. E, depois de colocar a bandeja sobre a mesa de centro, ficou parada, olhando para a camisa nas mãos do rapaz. O homem falou:
Foi ela que escolheu.
Obrigado, o rapaz disse.
A mulher sorriu de um jeito tímido. E retornou à cozinha arrastando uma das pernas. O homem e o rapaz afundaram lado a lado no sofá.
E então, você pensou no que eu falei?
Antes de responder, o rapaz curvou o corpo para frente com dificuldade e colocou a xícara sobre a mesa de centro. Ganhou tempo. E falou sem olhar para o rosto do homem.
Pensei, seu Valdemar. Não posso aceitar.
O homem suspirou.
Não pode por quê?
Não posso, só isso.
O homem se mexeu no sofá. Seu corpo tocou no do rapaz.
Você é orgulhoso que nem a sua mãe.
O rapaz o encarou.
Não é orgulho. É que eu tô pensando em ir embora.
Embora pra onde?
Ainda não sei, o rapaz disse. Vou pra uma cidade maior.
Você não precisa fazer isso. Pode ficar por aqui e ganhar a vida com a borracharia.
Eu vou embora.
O homem também colocou a xícara sobre a mesa. Balançou a cabeça.
Tem uma coisa que você não sabe.
Pronto, o rapaz pensou, lá vêm as histórias. Estava acostumado: desde menino escutava as conversas na cidade (diziam que ele era filho do borracheiro; mas ele sabia que não era). Só que o homem falou de outro assunto.
Eu tô doente, Cléber. Tenho pouco tempo de vida.
O rapaz baixou a cabeça, não soube o que dizer. O homem tocou em seu braço. Disse:
Eu já estive no cartório e passei tudo para o seu nome. Esta casa, a borracharia. É tudo seu.
O rapaz levantou-se do sofá.
Eu não posso aceitar uma coisa dessas, seu Valdemar.
Claro que pode. Eu sempre ajudei a sua mãe. E agora quero te ajudar.
O rapaz ficou em silêncio por um tempo. Pensava na mãe, que tinha morrido meses antes. Uma vez, chegara a conversar com ela sobre os boatos que ouvia.
E por que o senhor quer me ajudar?
Porque sim. Eu não tenho ninguém pra quem deixar as minhas coisas. Deixo pra você, que também não tem ninguém.
A mãe dissera que aquilo não passava de fofoca. Seu pai, ele sabia, era um engenheiro com quem sua mãe se envolvera na época em que a mineradora se instalou na cidade. Um estrangeiro. Quando mais novo, o rapaz gostava de imaginar o pai como um aventureiro. Um aventureiro que fora embora da cidade e que nunca voltara para visitá-lo.
Não posso aceitar.
Não depende de você, Cléber. Tá tudo no seu nome lá no cartório.
Nesse momento, a empregada surgiu entre as tirinhas da cortina.
Eu já vou me deitar. Se vocês precisarem de alguma coisa, é só chamar.
Obrigado, Conceição, o homem disse.
E então se levantou do sofá e ficou ao lado do rapaz. Pôs a mão em seu ombro.
Você não precisa vir morar aqui. E, depois que eu morrer, você pode fazer o que quiser com esta casa e com a borracharia.
Eu não vou aceitar.
O homem pareceu não ouvi-lo.
Só tem uma coisa: eu não quero que você deixe a Conceição na mão.
Às vezes, no dia de seu aniversário ou em ocasiões como aquela, o rapaz recebia presentes que, ele sabia, não haviam sido comprados pela mãe. Ele gostava de imaginar que o pai os enviara. O aventureiro estrangeiro.
O senhor conheceu meu pai?
O homem pensou antes de responder.
A sua mãe não falava dele pra você?
A mãe não gostava de falar do assunto, o rapaz lembrou. Parecia incomodá-la. Uma dor. E ele respeitava, evitava perguntas. Contentava-se com os fiapos que conhecia.
Eu já vou embora, seu Valdemar. Obrigado pelo jantar. E pela camisa.
O homem colocou outra vez a mão em seu ombro.
Posso te dar um abraço?
O rapaz pôs a caixa sobre o sofá e então ele e o homem se abraçaram. Ficaram assim por um tempo.
Quero que você me prometa que pelo menos vai pensar no assunto, Cléber.
O rapaz não disse nada. Limitou-se a recolher a caixa e a caminhar em direção à porta. O homem disse:
Eu não tenho muito tempo pela frente.
Quando chegou à rua, o rapaz sentiu alívio. Estava transpirando - devia ser o vinho, não tinha o costume de beber. Antes de se afastar, olhou uma última vez para a casa. Sua casa. Esse pensamento encheu-o com uma sensação que ele não soube definir.
Era cedo ainda e ele não pretendia voltar para o quarto-e-sala que ocupava nos fundos de uma casa. Onde sempre vivera com a mãe. Pensou em ir até um dos bares do centro, talvez encontrasse algum dos amigos. Não, ele sabia que os amigos estavam com suas famílias naquela hora.
Em frente a um sobrado, dois garotos brincavam com uma bola, que, num chute descuidado, veio rolando em sua direção. Uma bola nova em folha, que os garotos tinham acabado de ganhar. Ele agachou-se, recolheu a bola e a devolveu ao garoto. Depois, encostou-se num poste e permaneceu por algum tempo assistindo às brincadeiras dos garotos.
Pensou na mãe e lembrou-se de que ela sempre ficava triste em dias como aquele. Nunca soube por quê.
Então, de repente, ele se virou e retornou pela rua, em direção à casa do borracheiro. A sua casa. Ainda não sabia muito bem o que diria quando o homem abrisse a porta. Talvez dissesse apenas que voltara porque tinha se esquecido de lhe desejar feliz Natal.

Turmas 11 A 11B 11C 2009